domingo, 19 de outubro de 2008

Ensaio sobre a ansiedade solitária

Poucas coisas na vida trazem mais ansiedade que a própria ansiedade. Independentemente da causa da primeira ansiedade, deparando-se o ansioso com a impotência sobre a causa e a companhia inevitável desse odioso estado de espírito, logo começam comichões, tremedeiras, angústias involuntárias que enervam a ponto de ser insuportável a autoconvivência, até que passe a maldita ansiedade.
Então, o desafio: como pedir ao ansioso que espere até passar a ansiedade? Como superar a angústia da angústia? Não seria complicado, se na companhia de pessoas um pouco mais “normais”, conversando ou fazendo coisas quaisquer sem relação com a causa do transtorno. Mas é tarefa semi-impossível ter, sozinho, calma para esperar passar a ansiedade. Note-se, na expressão “calma para esperar passar a ansiedade”, a companhia improvável dos termos “calma” e “ansiedade” – dois termos tão conciliáveis quanto rapadura salgada ou calcinha masculina...
Se pensarmos na importância de não estarmos sozinhos nesse processo de “cura da ansiedade”, engraçado – ou perturbador – imaginar que o mesmo fato pode ter dois pontos de vista: de um lado, as companhias nos ajudam a nos livrar do mal que, quando a sós, podemos fazer a nós mesmos – culpa, talvez, de uma mórbida e masoquista criatividade solitária; por outro lado, parece fuga covarde – oras, como se admitir não encontrar soluções, conforto em si próprio, depositando esperanças de cura em terceiros, se a única companhia certa até o fim da vida é a do próprio vivo?
Por mais triste e óbvia que pareça a constatação, pais, esposas, filhos, amigos, todos um dia se vão, a não ser que você vá antes. Mas nenhum deles – incluindo a si próprio – te suportará, se você não der provas de que se suporta sozinho, que sabe se virar apenas em companhia própria (e com alguma qualidade).
Possível solução? Utopicamente, sugere-se autocontrole, autoconfiança, respirar fundo, ser racional, otimista... Mas quando nada disso dá certo, e não havendo outra pessoa com quem manter um diálogo, talvez uma boa idéia fosse conversar com quem sobrou – você.
Nesse caso, não basta pensar: tem que conversar, de preferência no mesmo tom e com as mesmas piadas que se faria conversando com terceiros. Só pensar é vago e dá asas demais, a ponto de dificilmente se concluir o pensamento inicial – quase uma brincadeira de “telefone-sem-fio” cerebral. Mas conversar tem a ver com lábia, empatia, conquistar o interlocutor, e que bom se conquistador e conquistado forem uma só pessoa... Orgulho em dobro! E, importante, sem medo ou vergonha de eventuais olhares de terceiros assustados com os risos, conselhos e broncas de si para consigo.
Maluquice? Loucura? E daí? “Mais louco é quem me diz, e não é feliz”... Faz bem pensar assim - ao menos, é mais divertido.

Um comentário:

André Meireles Borba disse...

Parabéns de novo, mas vê se dá uns passeios por aí pra animar um pouco, meu!

"poucas coisas na vida trazem mais ansiedade que a própria ansiedade"

caprichou!!!

Beijão!!!