sábado, 27 de dezembro de 2008

Simone, em dois atos

Ao entrar exausto e sonolento no quarto, eis que me deparo com ela. Simone. De costas, mas com certeza ciente da minha entrada no quarto. Parecia adivinhar como surpreender um homem, como fazê-lo esquecer de viagens longas, do cansaço, do estresse, ou de quaisquer outras espécies do gênero “realidade”. Simone, talvez, saiba o quanto um homem aprecia um olhar, um carinho um elogio, uma boa conversa. Talvez saiba... Apenas talvez. Ela nunca me dirá. Mas, com certeza, Simone sabe que um homem aprecia uma... nuca. Aquela nuca feminina, desnuda, tão inocente e culpada ao mesmo tempo. Apenas uma nuca. Mas uma nuca feminina – e, em se tratando da mulher em questão, “nuca” e “feminina” deveriam ser lidas com todas as letras em maiúsculo, mantida, contudo, a escrita minúscula de qualquer adjetivo que lhe fosse dirigido. Justamente assim que Simone se apresentava ao mundo: aparentemente delicada e inofensiva – o que, contraditoriamente, tornava-a responsável pelas confusas, incontáveis, maiúsculas reações.
Em sintonia com Simone, sem jamais cruzar olhares, imaginei ao primeiro instante que ela estaria me chamando para mais perto; mais especificamente, que buscasse me confortar, oferecendo sua nuca. Um carinho tão ou mais intenso quanto um abraço. Parecia dizer: “Não me importo por problemas, por pessoas, pelo mundo, só me importo por você”. Ou talvez, tais pensamentos só a mim pertenceriam. Ela apenas estava lá, em seu mundo, enquanto eu estava longe de qualquer realidade.
Ainda flutuando em sonhos acordados, me deparei com Simone em um segundo instante, se virando delicadamente – como não poderia deixar de ser – e, sem esconder a nuca, deixando os longos cachos loiros escorregar por uma das mãos, enquanto a outra segurava um lençol que lhe cobria o suficiente para evitar uma nudez completa. Sim, havia seios, mas a cena era tão bela, que não se permitiam pensamentos impuros. Ou melhor, qualquer pensamento impuro deixava de sê-lo, compreendido pela situação quase angelical da cena. Era isso: Simone era um anjo; dificilmente alguma humana entenderia tão bem, e com tão poucas palavras (na verdade, nenhuma palavra), tantos desejos masculinos. Tudo, e tanto, sem qualquer movimento ou atitude que não fosse belo, puro, celestial.
Com o devido respeito às outras “Simones”... Essa era diferente de qualquer outra Simone, diferente mesmo de qualquer outra mulher. Aliás, se é certo que é mulher, não é tão certo assim que seja Simone. Ela mesma, nunca vai me responder; jamais se apresentará senão por uma nuca e outros belos detalhes. Mas, ao rodapé da tela, alguém fizera justiça à situação, evitando que se referissem simplesmente a uma bela mulher representada em dois quadros, e permitindo que se possa falar em Simone, esse anjo, com exibição em dois atos. Recuso-me a acreditar na resposta simplória de que se trata apenas do nome da artista; esta sim deixou de ter nome, quando cedeu sua costela em pinceladas e, aperfeiçoando Eva, criou Simone.