domingo, 15 de fevereiro de 2009

Jardim da vida

E qual era o motivo de acordar tão cedo? Era um domingo! Mas mesmo assim ela se achava no dever de levantar e diminuir as pendências da próxima semana. Outras pessoas diriam que isso era uma fuga, uma maneira de explicar como ela conseguiu reagir a tudo que aconteceu. Para ela não; fuga era não enfrentar o cotidiano, fuga era se esconder no único lugar que ninguém nos alcançaria: dentro de si!
Não muito tempo atrás, apenas há doze meses, Ingrid ainda sorria. Apesar de um ano não ser o suficiente para que envelheçamos tanto, Ingrid somatizou uma década em doze meses. A perda do único filho para essa mãe solteira é simplesmente inexplicável. Em palavras, mesmo dizendo que é como se o céu caísse sobre uma pessoa e, então o chão se abrisse e embaixo nada além de magma existisse; mesmo assim as palavras parecem sentir pena da situação e de uma forma bastante tímida abrandassem o acontecido.
João era um bom menino, e isso não é uma descrição saudosa e misericordiosa àqueles que já partiram. João era mesmo um garoto carinhoso, amoroso, atencioso. Seus oito anos de idade foram oito anos de alegria aos que estavam por perto. Porém não importa quanto tempo dura a felicidade, é fato que nunca vai durar para sempre. Todos os sentimentos são mutáveis com qualquer piscar de olhos!
Ingrid sabia disso; se não sabia, viveu e aprendeu. Independentemente do conhecimento congênito ou adquirido, Ingrid entendia a instabilidade do mundo ao seu redor. Entendia que uma flor nem sempre foi cheirosa, nem sempre foi sequer uma flor e que, em pouco tempo, deixará de ser o que é. Entretanto, sabia que ser flor é algo belo e que sempre vai acontecer em alguma parte do mundo. Sabia que perfume é perfume, pode ser trazido por uma flor ou levado pelo vento, só muda o local onde agrada o olfato alheio.
No cotidiano, no mais simples cotidiano, Ingrid dava um exemplo de vida. Mostrava que somos felizes pelo que vivemos e como vivemos, nunca pelo quanto vivemos. Mostrava que a vida é vivida por um imprevisível número de dias que nos dão sempre uma nova chance de buscar a felicidade, assim como nos expõe fragilmente à tristeza; essa é a mágica da vida! Reza todas as noites agradecendo por ter tido seu filho por perto, rezava por João ter sido a mais bela flor com o mais belo perfume que lhe alegrou a vida. E que a dor da sua ausência só existe pela alegria que foi sua presença; prefere viver com essa dor a nunca ter sentido o perfume.