domingo, 10 de outubro de 2010
Depois de um tempo...
sábado, 5 de setembro de 2009
O surpreendente amor real
Eu me casei há cerca de três anos. A cerimônia foi linda. Um dia já especial na vida de qualquer um, é mais especial ainda quando me lembro de toda a cena.
A igreja não era grande, e nem estava lotada, o que tornou tudo ainda melhor. A um coro bem afinado e com fundo orquestrado, as portas principais se abriram. Eu esperava apenas que Michele, minha noiva, entrasse. Antes, e ao invés disso, o mundo explodiu em um estrondo no meu ouvido. Minha primeira reação foi fechar os olhos, tremer, levar um susto. Havia um corneteiro para anunciar a entrada da noiva. Ele se preparou para tocar o galante aviso, devia também estar ansioso. Inspirou, expandiu o tórax, tomou fôlego. Soprou impetuosamente a mais afinada nota de corneta, apontando diretamente para o ouvido do noivo, de costas, olhando para a porta, parado poucos centímetros à frente.
Foi um susto e um pulo. Mais que isso, foi um desarme! Podia-se pensar que eu estava em uma cerimônia "social", uma "convenção moral" diriam uns, "um script bem definido", falariam outros. Mas eu não estava mais preparado para aquilo. Eu fora desarmado.
Talvez a Michele, que é mulher, sonhadora, estivesse com tudo imaginado. As mulheres ensaiam o casamento desde cedo com suas bonecas. Essa idéia arrepia até os homens que ainda são meninos. Se em algum momento passou em mim a idéia de um casamento para agradar, uma cerimônia previsível, aquela corneta no ouvido marcou o fim do que poderia ser planejado. Ela me desarmou! Tirou meus pés do chão! Desequilibrou! Em poucos segundo recobrei o sentido. Havia uma visão turva na periferia. No centro, apenas a Michele, usando o vestido mais branco que eu já vira, tão claro quanto seus dentes, emoldurados pelo mais largo sorriso.
E tudo, tão previsível como deve ter acontecido, para mim tornou-se uma grande e agradável novidade. Ao caminhar naquele tapete, seus passos eram feitos da mesma surpresa que fez com que ela entrasse na minha vida anos antes. E a cerimônia que as mulheres ensaiam tanto, foi para mim uma estréia contrastante: enquanto a Michele, radiante, sorria, correu em mim um choro copioso e insistente. Para piorar o contraste, fui eu quem teve a maquiagem borrada!
Estava coberto de pó-de-arroz que minha prima passara em mim pouco antes da cerimônia. "É para não refletir a luz nas fotos", disse ela. E lá estavam dois seres brancos de pé no altar. Um deles usava um largo sorriso e um vestido. O outro, de pele fantasma, dois traços sob os olhos, surpreso, feliz, emocionado. E o casamento transcorreu da melhor forma possível.
Lembro-me de vários detalhes também, mas gostaria de falar sobre dois em particular. São momentos menores dentro de um evento maior, e parecem marcar especialmente. Têm seu lugar cativo na memória. Uma recordação puxando a outra. Como lembrar-se de um jogo de futebol no qual seu time ganhou, mas também perdeu um gol, errou um pênalti, ou aquele craque fez um drible magnífico, por exemplo. Às vezes você pensa na vitória, e lembra logo daquele lance maravilhoso, ou do gol que poderia ter saído. Às vezes o caminho é inverso. Basta pensar no gol perdido e vem a lembrança do jogo.
Antes da cerimônia, há um momento ímpar no qual os padrinhos já estão em fila, os convidados já estão sentados no lugar, mas nada parece acontecer. O noivo estampa um sorriso padrão. Todos se sentem a vontade para fazer a mesma piada: "Ih! Eu acho que ela não vem!".
É engraçado na primeira vez. Você ri na segunda. Mas quando te falam pela vigésima vez, já não tem mais graça. Eu não saberia dizer se, abotoado no fundo do paletó que só se usa uma vez na vida, existia um lugar onde eu ousava crer naquilo. Acreditar que ela tivesse mudado de idéia, que depois de uma ou duas horas em pé me restaria sorrir e agradecer a presença de todos, mas não iria mais haver casamento. "Desculpe! Vocês podem beber e comer a vontade! A festa já está paga mesmo. Eu posso deixar para pular da ponte mais tarde."
Hoje penso que isso não era tudo. Havia uma vontade de começar logo, para terminar logo. Inexperiência em ficar na frente de todos sem ter muito a dizer ou fazer, de certa maneira. Era um anseio para começar a vida, se é que me entendem. Ou talvez fosse só a vontade de se concentrar para que tudo corresse bem.
No auge daquele incômodo paranóico, abotoado no paletó, minha mãe foi falar comigo. Ela escolheu, inadvertidamente, esse momento para tratar de coisas trivialmente importantes, mas alheias a minha consciência. Ela perguntou "Onde você deixou a chave dos quartos do hotel?" ou algo parecido. "Tem gente lá ainda para vir à igreja e que precisa pegar as coisas".
As perguntas soavam destoantes na minha mente enevoada. Vibravam de maneira diferente do meu pensamento. Em uma situação comum, a resposta soaria gentil, agradável, mesmo que nula. Algo como "eu não sei, mãe", ou "deixei na portaria", ou até "estão aqui comigo, que bom que a senhora me lembrou!". Mas nada disso aconteceu. De um tipo egoísta de concentração saíram palavras que começaram com um "não sei e nem quero saber", e terminaram rudemente com palavras de calão baixo o bastante para que nunca sejam ditas, ainda mais em uma igreja.
Sobre isso, quero falar.
É claro que minha mãe sorriu depois. Ela amorteceu o impacto. Não sem antes uma bronca usual. Seu sorriso e atitude superiores permaneceram como um guia para me situar de volta ao prumo da cerimônia. Quem assiste a filmagem percebe nossa entrada na igreja, sorrindo, braços dados. Uma mãe levando o filho para o altar e o casamento. Não há nela semblante de remorso, tristeza ou chateação. Mães são feitas de um material que é mais duro do que isso, e, ao mesmo tempo, é mole o bastante para amortecer qualquer impacto e fazer brotar a vergonha no filho que se atreve a afrontá-las. Elas são a melhor expressão da lei física de que "a toda ação segue-se uma reação de igual força, mas em sentido contrário". Percebe-se que Isaac Newton tinha uma mãe.
Na mesma filmagem, na mesma seqüência de entrada, percebem-se facilmente os passos largos e corridos do noivo pálido, quase tirando a mãe do equilíbrio. Ela esperara vinte e sete anos para acompanhá-lo ao altar em seu casamento, mas nâo podia prever que seria menos um desfile e mais uma corrida de cem metros rasos. Homens não ensaiam essa parte. "É claro que eu sei entrar em uma igreja, que coisa mais boba", responderiam dez de cada dez solteiros perguntados na rua. Mas na verdade não há ensaios suficientes durante a infância masculina. A filmagem é uma prova disso.
A cerimônia foi linda. Ninguém, exceto eu, parecia estar abalado. Mesmo minha mãe e minha sogra, feitas do material único com o qual as mães se moldam, estavam excepcionalmente apropriadas. Mas o noivo pálido estava com a maquiagem borrada, ao lado da noiva mais bela e sorridente do mundo. Na minha família, incluindo meus irmãos, um pranto levou ao outro, de tal forma que, semanas depois, quando perguntado sobre o casamento, um amigo nosso, padrinho da cerimônia, respondeu "foi muito bonita, estava tudo ótimo, uma beleza", e acrescentou ironicamente, "só não entendi porque é que a Michele estava sorrindo tanto e no lado do noivo tinha tanto homem chorando."
E é sobre mães e pais que eu ainda falo. Há tantas histórias que nos marcam.
Há alguns anos, eu trabalhava em plantões em unidades de terapia intensiva de um hospital. Foi internado um garoto de dezesseis anos apresentando um caso raro de pneumonia causada por varicela. "Como assim? Pneumonia por catapora?", perguntei eu, jovem, ao chefe da terapia, que estava me passando o plantão. Ele, experiente, foi categórico, "Pneumonia intersticial, viral, rara. Ao que se sabe, ele não tem qualquer deficiência imunológica e é bom prestar atenção, a mortalidade é bem alta nesses casos".
Seu comentário poderia antes ter sido apenas esclarecedor, mas foi também clarividente. De um desconforto respiratório e febre, a situação agravou-se. Foi necessário acalmá-lo com medicação. Depois, já não havia condições para respirar adequadamente. Foi preciso iniciar ventilação mecânica com entubação orotraqueal. O estado prolongou-se. O que era causado por vírus tornou-se um chão fértil para bactérias e depois fungos. A pneumonia piorou de forma grave. Foi necessário um dreno para aliviar o derrame próximo a seus pulmões. Já não era mais possível manter contato com o garoto. Ele permanecia sedado a maior parte do tempo. Havia momentos em que ele abria os olhos e dizia, com aquela linguagem que só os olhos falam, "doutor, me deixa sair logo daqui", "eu só quero voltar para casa, ficar melhor". Mas seus olhos avançavam para um estado mudo e fechado, pois não havia voz naquele sono profundo.
Mais de dois meses se passaram. Diante da gravidade, seu pai e sua mãe eram o exemplo tocante de amor. Diariamente suas vozes eram mais altas que às dos aparelhos. Imagino que o garoto tenha escutado a voz deles por sobre os bips constantes e inumanos. Eles devem ter sido o apoio em que ele se agarrava. "Força, meu filho". "Estamos orando por você". "Isso vai passar logo". Frases comuns, ditas com uma vontade excepcional.
Na atividade médica fala-se em uma carapaça que recobre o profissional a ponto de torná-lo refratário a emoções. Isso é verdade em parte, mas não havia armadura capaz de barrar a emoção daquelas cenas. Era difícil até, qualquer que fosse a experiência do plantonista, passar informações sobre o caso. A vontade, se ao menos isto fizesse a cura prevalecer sobre o destino, era a de largar as canetas e os estetoscópios, reerguer o garoto e tirar todas as infusões, os drenos e os tubos que o seguravam conosco. "Volta para tua casa, garoto!", diríamos a ele, "Isso não é lugar para a sua idade. Catapora é só uma doença boba de quando a gente é criança. Pode acontecer pneumonia, mas é raro. Tão raro que está escrito só aqui, ó, no canto do livro. Não é justo que uma doença de rodapé de livro possa ser grave". O experiente chefe da terapia intensiva diria para o menino "vai para casa, meu filho! Ninguém morre disso. O pior que ela faz com a gente é deixar uma cicatriz feia na pele, e ainda assim só se você coçar!". Mas seus rins já não funcionavam bem e vários órgãos apresentavam sinais de sobrecarga. A vontade é apenas o que move o ser humano, não é o que de fato deixa rastro.
A piora aconteceu, a despeito dos desejos e das orações. Os pais alugaram um quarto dentro do hospital, como se fossem pacientes. E ali moraram por mais de dois meses. Todos os plantonistas, de uma forma inconscientemente coletiva, abriam exceções merecidas dentro dos rígidos horários de visita. Nas madrugadas em que conversávamos após a visita ao garoto, os pais falavam "nós estamos instalados em um quarto do hospital doutor. Isso quer dizer que nós estamos doentes como ele. Melhor ainda! Nós também somos pacientes, doutor! Pacientes perante a vontade de Deus..."
E foi Ele quem programou a partida do garoto em sua agenda tão exclusiva. O plantão começara extremamente agitado, as drogas não surtiam o efeito desejado, mesmo quando já estavam muito acima da dose habitual. Não havia mais drenos, medicações, manobras, cirurgias... O pulmão se fechara. Nossas ações eram tentativas sinceramente heróicas. Nossos olhos gritavam! Os dele calavam. Após mais de dois meses com aquilo que nenhum garoto na idade dele deveria suportar, a luz que surgia no fim do túnel tinha a cor da paz.
Habitualmente a reanimação é tentada por até trinta minutos em um paciente que apresente parada cardíaca. Após esse tempo, pode-se declarar o óbito, que também é conhecido no meio médico como "êxito letal". Uma expressão algo poética. Afirma que a morte teve seu êxito, como se fosse possível contrariá-la. Pois a morte venceu! Levou mais de duas horas para, enfim, vencer a seqüência insistente de manobras das mais intensas e honestas que já presenciei ou realizei até hoje.
Houve um silêncio frio, prolongado e fora do usual. Descalças as luvas e a máscara, vestido escancaradamente com um pesar intenso, dirigi-me à saída da terapia para ir ao quarto do hospital onde estavam dormindo os pais do menino. Não foi necessário. Ao abrir a porta da UTI os dois já se encontravam lá, de pé, em frente, cabeças inclinadas ao chão. Algo que não tenho esperança de entender os avisara. Riscos pesados molhavam seus rostos. O semblante era cansado, mas não necessariamente triste. Os olhos estavam vermelhos e cobertos de muita, muita paz.
"Já sabemos doutor. Sentimos isso. Ele está em paz agora."
E não houve mais qualquer outra intercorrência, com qualquer outro paciente internado, durante todo o resto do dia. O garoto, agora em paz, tinha o mesmo nome que o meu.
Eu não sei do que os pais são feitos. Mas é um material especial, eu pressinto! Hoje a Michele carrega o que ainda é apenas uma pequena ervilha, nossa ervilha, com 9,1 milímetros e cujo coração bate 141 vezes por minuto dentro dela, junto com o dela. Eu acredito que, de nossos pais, deva brotar o material para nos reforçar. Resistente como o aço, maleável como a água. Eu sei que vai ajudar, durante toda a vida, a esse que já é tão esperado e tão amado. Eu sei porque foi com essa ajuda que chegamos até aqui.
Mas alguém ainda poderia perguntar sobre aquilo que eu falei lá no começo. "Ele disse que se lembrava particularmente de dois momentos relacionados ao casamento e só falou de um até agora", diriam os impacientes. Havia dois momentos para se recordar daquele mesmo jeito conectado com que às vezes um pênalti perdido ou um drible bonito faz lembrar mais de um jogo que o fato de seu time ter ganhado o campeonato naquela partida. Se um dos momentos era o triste episódio antes da entrada na igreja, falta outro relato.
Esse outro instante foi após o casamento, após a lua-de-mel, já em casa, vida de casado. Não havia vestidos brancos ou rostos pálidos de pó-de-arroz. Todas as piadas sobre o quanto o noivo era chorão já tinham sido feitas e inventadas. Chegou enfim o vídeo com a filmagem da cerimônia. Ali estavam a orquestra, meus pais e meus sogros, os padrinhos, os convidados, nossas famílias, nossos avós, que trouxeram as alianças. Claro, em destaque, o noivo chorão e a noiva risonha.
Assistindo a filmagem eu tinha uma sensação feliz, agradável, como quem assiste, satisfeito, a recordação de um momento intenso. "Missão cumprida", eu pensava. Michele, por sua vez, era a noiva feliz e sorridente, com dentes brancos emoldurados em um largo sorriso durante todo o casamento. Permanecia radiante, sem derramar uma lágrima no vídeo, mas agora se desmanchava em choro sobre o sofá. Soluçava e tinha a cara inchada, mal conseguia dizer uma palavra. "Foi tudo tão bonito, tão emocionante, você não acha, amor? Mas porque você e sua mãe correram na entrada?".
Ainda é assim até hoje, quase sempre. As pessoas vêem eternizadas na tela cenas de um noivo chorão e pálido ao lado de uma noiva altiva, risonha e bela. Fora da filmagem, ela chora copiosamente ao lembrar-se de tudo, longe de qualquer câmera. Existe certa injustiça nisso, ou não?
Enfim, a todos, sobre todo esse amor que lhes contei, vale parafrasear o que já sabemos e ouvimos:
"O amor é paciente e é gentil. O amor não é invejoso e não tem dúvidas. Ele não é arrogante ou rude. O amor não insiste em fazer as coisas do jeito dele. Ele não se irrita e não fica ressentido. Ele não se alegra com o errado, mas se regojiza com o certo. O amor resiste a todas as coisas, acredita em todas as coisas, tem esperanças por todas as coisas. E o amor nunca termina."
Com amor,
André
domingo, 15 de fevereiro de 2009
Jardim da vida
Não muito tempo atrás, apenas há doze meses, Ingrid ainda sorria. Apesar de um ano não ser o suficiente para que envelheçamos tanto, Ingrid somatizou uma década em doze meses. A perda do único filho para essa mãe solteira é simplesmente inexplicável. Em palavras, mesmo dizendo que é como se o céu caísse sobre uma pessoa e, então o chão se abrisse e embaixo nada além de magma existisse; mesmo assim as palavras parecem sentir pena da situação e de uma forma bastante tímida abrandassem o acontecido.
João era um bom menino, e isso não é uma descrição saudosa e misericordiosa àqueles que já partiram. João era mesmo um garoto carinhoso, amoroso, atencioso. Seus oito anos de idade foram oito anos de alegria aos que estavam por perto. Porém não importa quanto tempo dura a felicidade, é fato que nunca vai durar para sempre. Todos os sentimentos são mutáveis com qualquer piscar de olhos!
Ingrid sabia disso; se não sabia, viveu e aprendeu. Independentemente do conhecimento congênito ou adquirido, Ingrid entendia a instabilidade do mundo ao seu redor. Entendia que uma flor nem sempre foi cheirosa, nem sempre foi sequer uma flor e que, em pouco tempo, deixará de ser o que é. Entretanto, sabia que ser flor é algo belo e que sempre vai acontecer em alguma parte do mundo. Sabia que perfume é perfume, pode ser trazido por uma flor ou levado pelo vento, só muda o local onde agrada o olfato alheio.
No cotidiano, no mais simples cotidiano, Ingrid dava um exemplo de vida. Mostrava que somos felizes pelo que vivemos e como vivemos, nunca pelo quanto vivemos. Mostrava que a vida é vivida por um imprevisível número de dias que nos dão sempre uma nova chance de buscar a felicidade, assim como nos expõe fragilmente à tristeza; essa é a mágica da vida! Reza todas as noites agradecendo por ter tido seu filho por perto, rezava por João ter sido a mais bela flor com o mais belo perfume que lhe alegrou a vida. E que a dor da sua ausência só existe pela alegria que foi sua presença; prefere viver com essa dor a nunca ter sentido o perfume.
segunda-feira, 26 de janeiro de 2009
Prático e Bufão
Pois bem. Um belo dia, ambos saboreavam qualquer coisa que Prático havia caçado para o almoço – o talento de Bufão para a caça limitava-se à árdua tarefa de digeri-la; de qualquer forma, a comida estragaria se não fosse consumida em breve. Prático não reclamava: melhor permitir a um conhecido comer as sobras do que deixar a comida estragar, enchendo o ambiente de moscas e pesando sua consciência ao negar um alimento que, afinal, lhe sobraria. Enquanto Prático fazia a digestão recuperando-se do cansaço matinal, e Bufão fazia a digestão com a mesma atitude e preguiça de um dia inteiro – incluindo aí a parte do dia que ainda não acontecera –, o tempo fechou. Nuvens negras cobriam o céu e assustavam a terra, obrigando os seres a buscar abrigo. Para Prático, isso significava cobrir a lenha que mantinha de estoque, trazer umas sementes para junto de seu refúgio entre os troncos de árvore – acaso a chuva demore mais que o conveniente – e, enfim, abrigar-se. Para Bufão, restava continuar como estava: abaixo de sua costumeira copa de árvore, onde, amante de uma eterna preguiça, se via abraçado pelas sombras, acariciado pela brisa e beijado por folhas que lhe cobriam as vistas. De repente, entre raios estrondosos que riscavam o céu e, por vezes, chicoteavam a terra, Prático notou uma pequena chama surgindo no topo da copa de árvore onde Bufão roncava profundamente. Gritou pelo colega, sem sucesso, vencido pelo barulho ensurdecedor do temporal. Desesperado, antes que uma diminuta chama se tornasse um incêndio florestal, subiu entre os galhos, até se deparar com o fogo. Felizmente, era apenas um galho, que, seco, facilmente se partiu com o esforço de Prático. Saltando da copa da árvore para o chão, com o galho em mãos, buscou um pedaço de chão sem folhas onde atirou o galho, cobrindo-o de terra e, com pancadas ao solo, desferidas com a ajuda de uma grande pedra, certificou-se do fim do temido fogo. Prático, respirando aliviado, olhou ao seu redor: tudo igual. Engraçado constatar que, para que tudo permaneça o mesmo, tanto precise ser feito – ao contrário do que poderia parecer, ao reparar Bufão ainda envolto em sonhos embaixo da copa. Por um segundo, Prático mentalmente trocou Bufão de posição com o galho em chamas, como se pudesse também soterrar e eliminar aquele ócio doentio – após algumas pancadas, o comodismo do colega sairia em forma, cheiro e som de fumaça, surgindo da terra um novo Bufão, que certamente precisaria de um novo nome. Bom, mas, voltando à realidade, lhe sobrava o orgulho pessoal e contido de ter feito a coisa certa – ou, ao menos, de ter feito alguma coisa. Às vezes lhe surgia uma certa revolta por batalhar sozinho em prol de benefícios partilhados. Mas deixa pra lá. Não era por Bufão que Prático vivia seus dias e procurava fazer o bem. Fazia o bem pelo bem, e isso lhe bastava – fazer o bem ao seu redor era uma grata conseqüência dos esforços em busca de uma vida que lhe parecia digna de ser vivida.
sábado, 27 de dezembro de 2008
Simone, em dois atos
segunda-feira, 17 de novembro de 2008
Palavras de um vestibulando
Meu pai me contava que quando ia chover o joelho de um vizinho nosso inchava. Nem sei mais se ainda tenho esse vizinho, mas aprendi a checar as informações meteorológicas na internet, daqui ou do resto do mundo, sempre que preciso. Na minha infância, esperava chover para chamar os amigos e jogar futebol no gramado molhado. Porém, por gastar muito tempo trabalhando no computador, não tenho me importado tanto com a chuva que cai lá fora.
Não conheci os pais dos meus avôs; todos eles morreram antes dos 65 anos de idade. Por outro lado, meus avôs estão vivos até hoje. Minha avó materna é a mais nova, com 75 anos, e meu avô paterno, o mais velho, completou ontem 95 anos. O médico deles disse que hoje em dia é mais fácil tanto diagnosticar como tratar as doenças. Também falou que nunca foi tão fácil estudar em casa, recebendo artigos do mundo inteiro!
Acho que às vezes nos falta bom senso. De nada me adiantaria checar a programação do cinema pela internet se eu não pudesse ir ao cinema para assistir um belo filme com minha namorada. A tecnologia com certeza nos oferece mais opções do que antigamente; oferece desde a diversão para a saúde mental até os melhores tratamentos para a saúde física. Entretanto, tecnologia alguma substituirá o calor humano, o prazer de viver, o sentido para que vivamos cada dia mais e melhor.
quarta-feira, 5 de novembro de 2008
O velho e o cachorro
Já era tarde, estava escuro quando o velho entrou em casa. Sua roupa de trabalho empanada de suor e areia após um dia de serviço pesado. O rosto fechado mostrava uma reação ranzinza. Sentou-se à mesa. Não havia comida. As refeições eram tomadas como parte da jornada laboral. Isto permitia certa economia a um velho solitário, mas o faziam sentir, especialmente hoje, escravizado. Apenas duas coisas lhe eram certas ao anoitecer: uma garrafa de aguardente e seu fiel copinho, sempre dispostos a ouvi-lo nas lamúrias constantes sobre a solidão, velhice, trabalho, pobreza..., mas também sempre prontos a calá-lo quando o excesso de goles e de conversa trazia o sono etílico e vencia as injustiças que um velho pedreiro pode sofrer por culpa sua e do mundo.
Sob a mesa repousando estava seu velho cachorro, marrom e vira-latas, que o acompanhava na vida e na sujeira. A sala, quase o único cômodo do barraco que lhe era um lar, tinha a clareza de sessenta watts e umas três ou quatro estrelas que passavam por buracos no teto. O velho exibia uma carranca fenomenal, muito piorada hoje, quando começou o monólogo.
- Esse cara é um safado! Filho da puta! Não dá! Ele deve ter o quê? Metade da minha idade, ou menos. Assim não dá! Eu morro de trabalhar na obra e vem um franguinho desses e ganha mais que eu fazendo a mesma coisa. Não sei como pode... Antes, não! Aí era diferente! Se eu pudesse, ah... Eu estudei, porra! Se eu não tivesse feito colégio, vá lá... Mesmo se eu não tivesse... Ah, corno! Eu vou é matar o veado! Eu mato! Ele vai ver, esse corno vai ter comigo! Ele não agüenta! Vai piar fininho, o vagabundo... Como é que pode, meu Deus? É sempre isso? Ah, não pode! Meu Deus, eu vou matar esse veado!
Por pouco mais se prolongaram os impropérios regados a aguardente que o velho discursava para a platéia canina. A luz tremia com a inconstância de sua energia quando, inesperadamente, ouviu-se:
- Ora, fique quieto!
Breve silêncio. Deu uma olhadela no fundo do copinho de cachaça. Bebeu de uma vez todo o conteúdo para ter certeza de que o copo iria se calar. Restam ainda dois ou três dedos na garrafa. O velho ainda estava sóbrio (pode-se ter certeza! Seu fígado já era bem curtido). Decide tomar o resto da bebida falante, para calar ambas as vozes, mas ainda assim ele escutou:
- Quer saber, você só reclama e fica bebendo o dia inteiro. Deixa eu dormir em paz hoje pelo menos...
Então rapidamente ele acaba com o líquido maldito e pensa, “Como assim? O que foi que aconteceu, meu Deus! O que é isso? Cachaça falando? Devo ir dormir que é melhor.”
Resolve levantar-se e, inebriado, dá em seu cachorro amigo um chute, típico do bêbado sem equilíbrio, fraco e não intencionado, mas suficiente para provocar o animal. Em outro tempo, em outro mundo, o cachorro ganiria ou rosnaria, mas não hoje, não nessa casa:
- Puta-que-pariu, seu velho bêbado! Vai me bater agora, é?
O mundo parou por um breve instante. O velho pôde ver seu amigo marrom mover a boca ou o focinho, ou algo assim, como se pudesse falar igual aos homens. Já não havia cachaça que pudesse disfarçar a autoria da fala. Como um reflexo, óbvio como devem ser os reflexos, disse o velho:
- Você fala?
A casa estava mergulhada em silêncio. A luz fraca e bruxuleante ainda conseguia zumbir e era o único som do planeta. O velho repetiu, e agora já era mais que reflexo, quase um raciocínio:
- Você fala? – e os próximos cinco ou dez segundo de silêncio terminaram com um chute, muito certeiro para um velho bêbado, nas costelas do pobre animal. Esse, dessa vez, rosnou uma defesa e falou em seguida:
- O que você quer, porra? Deixa eu ir dormir. Bebe mais um pouco!
- Você fala! – e não era uma pergunta.
- Claro que falo! E você também fala, não fala?
- Sim, mas eu sou gente!
- E eu sou cachorro! Agora vamos dormir.
- Não, mas você não pode falar. Não pode! – O velho fechou os olhos para tentar reiniciar a realidade. Abaixou um pouco a cabeça e deixou-se rodar movido pela surpresa e pelo álcool. Mas ainda era o mesmo mundo quando ele abriu os olhos. Apenas o cachorro, magro e surrado, havia levantado para rearrumar seu dormitório sob a mesa.
- Você fala mesmo? – ao que o cachorro respondeu como quem responde a um “boa noite” antes de dormir, repousando no seu arremedo de cama entre os quatro pés da pequena mesa de plástico:
- Falo, seu doido! Claro que falo. Está surpreso?
- Mas, desde quando?
- Desde que eu aprendi, oras...
- E como é que você consegue isso?
Respondeu com indiferença. Um dar de ombros canino. O cão aprendera a “ranzinzez” do dono. Fechou os olhos e tentou puxar um sono de cachorro, aquele de dar inveja aos insones, quando sentiu ser levantado. Devia pesar uns dez, quinze quilos talvez. Agora pendia as quatro patas e era carregado pelo dono, que falava, exaltado:
- Agora, sim! Era isso que Deus havia guardado para mim. Porque sempre tem algo guardado. Muito melhor que família, casa, dinheiro... até melhor que cachaça! – E dizia isso em movimento. – Um cachorro que fala! – E circulava a mesa da sala na medida em que seus pensamentos rodavam. O peso do animal parecia ter lhe dado lastro a bebedeira e não havia quem suspeitasse de embriaguez pela maneira que o velho andava.
- Nós vamos ficar ricos! Meu cachorro fala! Você já pensou nisso? Que coisa maravilhosa!
- Deixa disso! Me larga! Quero dormir!
- Vamos ser ricos! Já pensou? Vou comprar um carro, uma casa nova... Vou matar aquele filho da puta! Mulheres... Ah, cachorro! Todo dia vai ter uma gostosa para a gente... Agora eu quero ver... Vou beber só uísque e cachaça boa!
- Mas o que você ganha com isso? Vamos dormir que é melhor.
- Vou ficar rico! Obrigado, meu Deus! Vou ficar rico!
- Deixa disso! Pense, homem! Falar é normal demais! As pessoas todas falam! Você fala! Porque você ganharia dinheiro por isso? – Havia certa razão canina. Até o velho, encachaçado, pôde perceber. – Vamos dormir que é melhor.
Fez-se um breve silêncio, tempo para conectar idéias de um velho bêbado. Ainda com o animal em seus braços, ele disse:
- Vamos para a televisão! Vou mostrar um cachorro falando na televisão. Esse vai ser meu novo trabalho. Você vai falar na TV! Vai dar entrevistas, fazer discurso, dar palestras, entrevistas,... Discursos, palestras, entrevistas,... O pessoal vai ficar louco pra te ver. O povo vai pagar a maior grana! Nós vamos ficar ricos! – E dirigiu-se à porta.
O velho abriu e deixou aberta a porta de casa. Saiu e pensou em procurar a primeira emissora de TV que aparecesse. Logo, pensou de novo e resolver escolher a maior delas, “afinal, eu tenho um cachorro que fala!”, refletia com uma fome de conforto e riqueza que nunca tinha deixado aflorar, pois nunca lhe parecera possível. Era uma sensação mista de libertação da vida dura (que ele já considerava passado) e de prazer pelo que viria, em seu pensamento, durante o resto de sua existência. Os carros importados, apartamentos de luxo, iates enormes, uísques escoceses, mulheres esculturais,... Eram uma indenização pelo que sofrera até hoje! Chegou a pensar na casinha do cachorro, mas de tal forma inebriado, concluiu que bastava uma mesa maior para o animal ficar embaixo. “Ah! Uma almofada! Certamente! Ele merece uma almofada para se deitar. Quem sabe, até um colchão? Mas como um colchão caberia sob a mesa? Um lençol também, ele pode ter um lençol! Vou comprar logo uma mesa bem grande!” – E seguiu sem rumo, buscando informações aos poucos transeuntes. – “Onde é o prédio da televisão?”.
Já estava próximo a avenida que lhe indicaram. Não havia trânsito praticamente. Isso permitia aos carros correr a vontade no asfalto largo e livre. Aproximou-se de um semáforo e mergulhou, imóvel, nos pensamentos. Uma estátua noturna e esquisita: um velho feio e um cachorro sujo iluminados por um poste à calçada.
Não notava que o sinal já abrira e fechara uma duas vezes e não notava que seus pensamentos saiam por vezes em voz alta. O cachorro, aprisionado ou aconchegado (o animal não saberia precisar) nos braços daquele que era seu dono desde filhote, escutava “Vamos ficar ricos!”, “Vamos ter todas as mulheres!”, “Vamos matar aquele filho da puta!”, “Vamos virar vereador! Não! Deputados!”, “Você vai viajar, dar palestras, discursos, entrevistas... Não vai faltar gente querendo lhe ver! E ouvir, claro! Ouvir você, um cachorro, falando! Hahaha...”.
O animal refletia caninamente. Em parte era semelhante ao dono, exemplo que teve na curta vida que tem os cachorros. Mas faltavam-lhe ingredientes do convívio social que, já disseram, podem ser adquiridos, tais como ganância, egoísmo, luxúria, etc..., componentes complexos da personalidade que nem os humanos entendem bem, pois lhe são parte. O pobre animal sentia de uma só vez as várias faces da natureza humana, que talvez seja assim chamada porque os humanos melhor a representam, e não porque detêm exclusividade nos sentimentos ditos viciosos. Os animais escapam dessa pejorativa. A eles tudo se nomeia como instinto.
Mas o cérebro do cão não se aprofundou em reflexões dessa natureza. Como podia? Imaginava ele agora que comeria apenas carnes suculentas e poderia revirar latas de vizinhanças melhores e pouca coisa mais que coubesse no mundo que conhecia. Pensava então nas entrevistas e nos discursos. Desde filhote fora criado pelo velho, sem nunca pensar em lugar ou missão no mundo. Apenas virava latas e rasgava sacolas. Fugia dos moleques e corria atrás do carteiro, mas era um cachorro solitário como o dono. Menos velho, é verdade. E mais esperto! Tinha certeza de possuir um vocabulário mais rico e uma inteligência maior. Certeza tinha também que o dono cometera erros que ele não faria. Era um cachorro ousado. Veterano em valores nem sempre virtuosos que o velho resmungava diariamente. Ele começava a duvidar que este idoso devesse ser o chefe da matilha. Afinal, era ele, o cão, quem faria os discursos, as entrevistas, as palestras... Para que os dois ficassem ricos, com muito dinheiro, mulheres, automóveis e apartamentos.
O sinal fechou para pedestres pela quarta vez. Carros cruzavam a faixa rapidamente. A cena era incompreensível aos demais: um animal carregava o outro, ambos com olhares de reflexão voltados para o céu. Um rompante canino quebrou a monotonia. O animal libertara-se, em pensamento, da escravidão a qual ele sentia que o dono lhe condenaria. O trabalho necessário para a riqueza dos dois devia ser o mesmo que o velho maldizia todos os dias, com um agravante: ele nunca dava ao cão a cachaça que parecia acalmá-lo. Do pensamento à ação! O animal entortou as costas, recolhendo e estendendo rapidamente as quatro patas, melhor dizendo, as quatro pernas (já era esse cão tão perto dos homens que o faz por merecer a promoção) e, para a surpresa do velho incauto, saiu de seu colo e alcançou o chão em postura de corrida.
A vida de um cachorro é muito curta para aprender a vida dos homens. Mesmo para um animal espetacularmente dotado como este que lhe falamos. E isto é dito não por questões filosóficas, mas quando a cabeça do coitado foi inundada pelas imagens dos sonhos do velho, esses desejos compartilhados ocuparam um espaço vasto demais na mente canina. Só assim pode-se entender como um vira-latas deixou ser pego ao atravessar a avenida. Não teve qualquer cuidado. O carro lançou-o para longe. O motorista chegou a reduzir a velocidade, olhou pelo retrovisor e inspecionou rapidamente a vítima. Sem esperanças veterinárias, decidiu retomar a velocidade e o destino.
Para trás, ficaram um velho e um cão imóveis. O velho chegou próximo ao animal, mais amigo que nunca. Assim como o bicho, a cabeça cheia de pensamentos não deixou com que tivesse cuidados ao atravessar a rua. Mas o velho tinha mais sorte, ou mais azar, ou apenas era humano e experiente. Não foi atropelado. Na verdade, nos dois ou três minutos seguintes não se viu mais carros na avenida. Ele encarou o corpo ensangüentado do cachorro e voltou-se, desolado, a casa. Pensou em saber qual o último pensamento do seu pobre animal, mas ele já não falava.
Não houve enterro, nem cerimônia. Do animal espetacular restava a lembrança e a carcaça. O velho voltou para casa em passos ébrios e pensamentos sóbrios. Uma sensação profunda de que algo mais havia morrido preenchia sua mente humana e limitada.
domingo, 19 de outubro de 2008
Ensaio sobre a ansiedade solitária
Poucas coisas na vida trazem mais ansiedade que a própria ansiedade. Independentemente da causa da primeira ansiedade, deparando-se o ansioso com a impotência sobre a causa e a companhia inevitável desse odioso estado de espírito, logo começam comichões, tremedeiras, angústias involuntárias que enervam a ponto de ser insuportável a autoconvivência, até que passe a maldita ansiedade.Então, o desafio: como pedir ao ansioso que espere até passar a ansiedade? Como superar a angústia da angústia? Não seria complicado, se na companhia de pessoas um pouco mais “normais”, conversando ou fazendo coisas quaisquer sem relação com a causa do transtorno. Mas é tarefa semi-impossível ter, sozinho, calma para esperar passar a ansiedade. Note-se, na expressão “calma para esperar passar a ansiedade”, a companhia improvável dos termos “calma” e “ansiedade” – dois termos tão conciliáveis quanto rapadura salgada ou calcinha masculina...Se pensarmos na importância de não estarmos sozinhos nesse processo de “cura da ansiedade”, engraçado – ou perturbador – imaginar que o mesmo fato pode ter dois pontos de vista: de um lado, as companhias nos ajudam a nos livrar do mal que, quando a sós, podemos fazer a nós mesmos – culpa, talvez, de uma mórbida e masoquista criatividade solitária; por outro lado, parece fuga covarde – oras, como se admitir não encontrar soluções, conforto em si próprio, depositando esperanças de cura em terceiros, se a única companhia certa até o fim da vida é a do próprio vivo?Por mais triste e óbvia que pareça a constatação, pais, esposas, filhos, amigos, todos um dia se vão, a não ser que você vá antes. Mas nenhum deles – incluindo a si próprio – te suportará, se você não der provas de que se suporta sozinho, que sabe se virar apenas em companhia própria (e com alguma qualidade).Possível solução? Utopicamente, sugere-se autocontrole, autoconfiança, respirar fundo, ser racional, otimista... Mas quando nada disso dá certo, e não havendo outra pessoa com quem manter um diálogo, talvez uma boa idéia fosse conversar com quem sobrou – você.Nesse caso, não basta pensar: tem que conversar, de preferência no mesmo tom e com as mesmas piadas que se faria conversando com terceiros. Só pensar é vago e dá asas demais, a ponto de dificilmente se concluir o pensamento inicial – quase uma brincadeira de “telefone-sem-fio” cerebral. Mas conversar tem a ver com lábia, empatia, conquistar o interlocutor, e que bom se conquistador e conquistado forem uma só pessoa... Orgulho em dobro! E, importante, sem medo ou vergonha de eventuais olhares de terceiros assustados com os risos, conselhos e broncas de si para consigo.Maluquice? Loucura? E daí? “Mais louco é quem me diz, e não é feliz”... Faz bem pensar assim - ao menos, é mais divertido.
sábado, 18 de outubro de 2008
Começando depois do início
Parando pra pensar, a gente nunca começa do começo, tem sempre uma história pregressa. Me lembro da minha primeira lembrança, eu já sabia o nome dos meus familiares... como pode, era pra ser o começo de tudo!?
Hoje o meu começo já está no meio de um sonho, um objetivo; propagar as reflexões, angústias ou mesmo devaneios de um trio de irmãos unidos pela distância. Aqui espero que encontrem muito mais do que desabafos pessoais; espero que encontrem pensamentos que já existiam dentro da sua própria cabeça mas que você nunca pensou que alguém pensasse igual!
Melhor acabar meu começo por aqui, deixo esse começo com cara de introdução como sinal de que estou chegando na área. Depois começo de novo... já no meio de algum outro pensamento!
domingo, 5 de outubro de 2008
Início
Este é um introdutório estranho. Um início que não é começo e está mais para uma largada de corrida com os carros em movimento. Na verdade essa é uma oportunidade pensada há algum tempo. Uma medida contra o sedentarismo mental. Um esforço de algumas braçadas para buscar margens mais agradáveis, nesse rio-correnteza, invencível, em que somos levados.
Mas essa é uma corrida em que se reveza, pois é basicamente o sentido de três irmãos com essa idéia. Quanto á largada em movimento, a qual acontece preferencialmente em chuvas pesadas, com perigo aos pilotos, não se estranhe a falta específica da tromba d’água: ela tem aparecido de sobra em nossa vida recente, o que me faz querer superar a fase em que uma coisa melhor parece tão boa quanto uma coisa menos ruim...
Um desejo fraterno carinhoso pelo sucesso desse espaço. Com braçadas fortes, em um rio ainda mais violento, façam-se prazerosas todas as margens do caminho. Inclusive estas, entre as quais emolduram-se os textos, repousando nas páginas.
André M Borba