Poucas coisas na vida trazem mais ansiedade que a própria ansiedade. Independentemente da causa da primeira ansiedade, deparando-se o ansioso com a impotência sobre a causa e a companhia inevitável desse odioso estado de espírito, logo começam comichões, tremedeiras, angústias involuntárias que enervam a ponto de ser insuportável a autoconvivência, até que passe a maldita ansiedade.Então, o desafio: como pedir ao ansioso que espere até passar a ansiedade? Como superar a angústia da angústia? Não seria complicado, se na companhia de pessoas um pouco mais “normais”, conversando ou fazendo coisas quaisquer sem relação com a causa do transtorno. Mas é tarefa semi-impossível ter, sozinho, calma para esperar passar a ansiedade. Note-se, na expressão “calma para esperar passar a ansiedade”, a companhia improvável dos termos “calma” e “ansiedade” – dois termos tão conciliáveis quanto rapadura salgada ou calcinha masculina...Se pensarmos na importância de não estarmos sozinhos nesse processo de “cura da ansiedade”, engraçado – ou perturbador – imaginar que o mesmo fato pode ter dois pontos de vista: de um lado, as companhias nos ajudam a nos livrar do mal que, quando a sós, podemos fazer a nós mesmos – culpa, talvez, de uma mórbida e masoquista criatividade solitária; por outro lado, parece fuga covarde – oras, como se admitir não encontrar soluções, conforto em si próprio, depositando esperanças de cura em terceiros, se a única companhia certa até o fim da vida é a do próprio vivo?Por mais triste e óbvia que pareça a constatação, pais, esposas, filhos, amigos, todos um dia se vão, a não ser que você vá antes. Mas nenhum deles – incluindo a si próprio – te suportará, se você não der provas de que se suporta sozinho, que sabe se virar apenas em companhia própria (e com alguma qualidade).Possível solução? Utopicamente, sugere-se autocontrole, autoconfiança, respirar fundo, ser racional, otimista... Mas quando nada disso dá certo, e não havendo outra pessoa com quem manter um diálogo, talvez uma boa idéia fosse conversar com quem sobrou – você.Nesse caso, não basta pensar: tem que conversar, de preferência no mesmo tom e com as mesmas piadas que se faria conversando com terceiros. Só pensar é vago e dá asas demais, a ponto de dificilmente se concluir o pensamento inicial – quase uma brincadeira de “telefone-sem-fio” cerebral. Mas conversar tem a ver com lábia, empatia, conquistar o interlocutor, e que bom se conquistador e conquistado forem uma só pessoa... Orgulho em dobro! E, importante, sem medo ou vergonha de eventuais olhares de terceiros assustados com os risos, conselhos e broncas de si para consigo.Maluquice? Loucura? E daí? “Mais louco é quem me diz, e não é feliz”... Faz bem pensar assim - ao menos, é mais divertido.
domingo, 19 de outubro de 2008
Ensaio sobre a ansiedade solitária
sábado, 18 de outubro de 2008
Começando depois do início
Parando pra pensar, a gente nunca começa do começo, tem sempre uma história pregressa. Me lembro da minha primeira lembrança, eu já sabia o nome dos meus familiares... como pode, era pra ser o começo de tudo!?
Hoje o meu começo já está no meio de um sonho, um objetivo; propagar as reflexões, angústias ou mesmo devaneios de um trio de irmãos unidos pela distância. Aqui espero que encontrem muito mais do que desabafos pessoais; espero que encontrem pensamentos que já existiam dentro da sua própria cabeça mas que você nunca pensou que alguém pensasse igual!
Melhor acabar meu começo por aqui, deixo esse começo com cara de introdução como sinal de que estou chegando na área. Depois começo de novo... já no meio de algum outro pensamento!
domingo, 5 de outubro de 2008
Início
Este é um introdutório estranho. Um início que não é começo e está mais para uma largada de corrida com os carros em movimento. Na verdade essa é uma oportunidade pensada há algum tempo. Uma medida contra o sedentarismo mental. Um esforço de algumas braçadas para buscar margens mais agradáveis, nesse rio-correnteza, invencível, em que somos levados.
Mas essa é uma corrida em que se reveza, pois é basicamente o sentido de três irmãos com essa idéia. Quanto á largada em movimento, a qual acontece preferencialmente em chuvas pesadas, com perigo aos pilotos, não se estranhe a falta específica da tromba d’água: ela tem aparecido de sobra em nossa vida recente, o que me faz querer superar a fase em que uma coisa melhor parece tão boa quanto uma coisa menos ruim...
Um desejo fraterno carinhoso pelo sucesso desse espaço. Com braçadas fortes, em um rio ainda mais violento, façam-se prazerosas todas as margens do caminho. Inclusive estas, entre as quais emolduram-se os textos, repousando nas páginas.
André M Borba
Enfim, um encontro
Sentado à beira da cama, o jovem A. tentava absorver as novas informações, disfarçando a natural ansiedade com pensamentos vagos, numa vã tentativa de reorganizar planos, pensamentos e sentimentos. Permaneceu assim por cerca de 10 minutos, que pareciam simplesmente não ter existido. O tempo não corria naquela nova realidade; não, ao menos, até que se deparasse com o relógio – quando se deu conta que, em verdade, o tempo simplesmente evaporara, sem que parecesse jamais ter existido. Assim como seus pensamentos.
Num esforço psicológico, A. tenta organizar-se em objetivos mais práticos: teria que arrumar-se, o que implica pensar em quais roupas vestir, qual perfume usar, e antes de tudo: providenciar um banho, urgente! “Ela merece”, pensou A. – já o próprio A., por si só, talvez não merecesse, ou assim agira nas últimas 48 horas, trancado em seu apartamento e alimentando-se de uma letargia que, de certa forma, lhe era aprazível. Mas um bom cheiro de limpeza e perfume era o mínimo que ela merecia – ela que, com um mero hidratante aplicado inocentemente nas mãos em meio às formalidades cotidianas, quebrava a seriedade reinante e envolvia menos o ambiente que a imaginação e os sentimentos platônicos de A.
Sozinho, abriu a porta de casa, e sozinho permaneceu pela longa caminhada. Sozinho... A auto-companhia havia se tornado uma constante, que A. supria com conversas incluindo pessoas que jamais estavam ali. Eram discursos, diálogos, desabafos, que provavelmente nunca ocorreriam senão em sua imaginária realidade – mas de qualquer forma lhe engrandecia, lhe tornava mais seguro, ou ao menos lhe supria os momentos de solidão. Não era uma solidão triste – nem exatamente divertida –, mas talvez intelectualmente necessária. Por muitas vezes era uma solidão que o próprio A. buscara, e quando se percebia triste pela falta de companhia, as imaginava.
Mas com ela havia sido diferente... Repetidamente diferente. Melhor dizendo, era uma mulher por quem A. não pensaria duas vezes em sacrificar a solidão, e aliás era justamente a falta daquela companhia que não parecia trazer mais qualquer interesse em qualquer outra, que não fosse por ocasional amizade. Sabia ser, talvez, exagero pensar e agir daquela forma, mas era algo inevitável. Dividir a vida com outra mulher havia se tornado algo sério demais para se tentar levianamente, sem grandes certezas.
Entre lágrimas e rosas, ela talvez estivesse observando a si própria, em algum plano etéreo. Fitando aquele corpo inerte, A. parece também estar nesse plano etéreo – o sangue corre em suas veias apenas o quanto necessário para permitir-lhe respirar –; os pensamentos novamente lhe transportam de qualquer realidade tangível e congelam o tempo. Tempo que, cruelmente, quando lembrado, parece ter corrido bem mais que o normal.
Ela se foi da vida de A., sem jamais lá ter estado de fato. Talvez por isso o último encontro não interfira tanto na realidade... Apenas, continua a mesma realidade, que um dia se quis diferente. Ela, involuntariamente, abandonou os planos solitários de um solitário A., que assim continua até que ela se faça novamente presente, seja em outra mulher, seja em outro plano.
Para A., ela certamente mereceu o banho, o perfume, o pensamento, e a atual perplexidade... Mas ele prefere pensar que ela merecia algo mais – algo que A., em sua pretensão desiludida, acredita que apenas ele poderia oferecer.
Adriano Borba
Nada. Nada... Bang!
Trata-se de um espaço para nossos textos, crônicas, contos, poesias, poemas, e quaisquer maluquices que costumamos criar e, "egoisticamente", guardamos na solidão de nossas gavetas - quando não se perdem no mesmo buraco negro de nossa casa (onde, que eu me lembre, há um caderno de poesias do André e um cortador de pizza guardado pela Seba). Válvula de escape, "catarse literária", enfim... Um registro do que nossa criatividade é capaz de produzir!
Espero idéias e, melhor que isso, colaborações!
Adriano Borba