Sentado à beira da cama, o jovem A. tentava absorver as novas informações, disfarçando a natural ansiedade com pensamentos vagos, numa vã tentativa de reorganizar planos, pensamentos e sentimentos. Permaneceu assim por cerca de 10 minutos, que pareciam simplesmente não ter existido. O tempo não corria naquela nova realidade; não, ao menos, até que se deparasse com o relógio – quando se deu conta que, em verdade, o tempo simplesmente evaporara, sem que parecesse jamais ter existido. Assim como seus pensamentos.
Num esforço psicológico, A. tenta organizar-se em objetivos mais práticos: teria que arrumar-se, o que implica pensar em quais roupas vestir, qual perfume usar, e antes de tudo: providenciar um banho, urgente! “Ela merece”, pensou A. – já o próprio A., por si só, talvez não merecesse, ou assim agira nas últimas 48 horas, trancado em seu apartamento e alimentando-se de uma letargia que, de certa forma, lhe era aprazível. Mas um bom cheiro de limpeza e perfume era o mínimo que ela merecia – ela que, com um mero hidratante aplicado inocentemente nas mãos em meio às formalidades cotidianas, quebrava a seriedade reinante e envolvia menos o ambiente que a imaginação e os sentimentos platônicos de A.
Seguiu-se o banho de mais 15 ou 20 minutos de pensamentos vagos e planos mal-planejados, até que novamente a realidade surgisse com algo a ser também lembrado. E, após trocar o cheiro vencido dos últimos dias pelo melhor cheiro de sabonete, xampu e condicionador que pudera providenciar, reforçado por duas borrifadas de um perfume discreto e agradabilíssimo – adequado a uma tarde de sol –, venceu a luta contra um cabelo que insistia em permanecer bagunçado, partindo em seguida para a rua, não sem antes recolher carteira, telefone e o inseparável chiclete, amontoados nos bolsos frontais da calça.
Sozinho, abriu a porta de casa, e sozinho permaneceu pela longa caminhada. Sozinho... A auto-companhia havia se tornado uma constante, que A. supria com conversas incluindo pessoas que jamais estavam ali. Eram discursos, diálogos, desabafos, que provavelmente nunca ocorreriam senão em sua imaginária realidade – mas de qualquer forma lhe engrandecia, lhe tornava mais seguro, ou ao menos lhe supria os momentos de solidão. Não era uma solidão triste – nem exatamente divertida –, mas talvez intelectualmente necessária. Por muitas vezes era uma solidão que o próprio A. buscara, e quando se percebia triste pela falta de companhia, as imaginava.
Mas com ela havia sido diferente... Repetidamente diferente. Melhor dizendo, era uma mulher por quem A. não pensaria duas vezes em sacrificar a solidão, e aliás era justamente a falta daquela companhia que não parecia trazer mais qualquer interesse em qualquer outra, que não fosse por ocasional amizade. Sabia ser, talvez, exagero pensar e agir daquela forma, mas era algo inevitável. Dividir a vida com outra mulher havia se tornado algo sério demais para se tentar levianamente, sem grandes certezas.
Mas, então, o telefonema inesperado, nessa tarde de sol... Um encontro. O tal encontro que, platonicamente, A. esperara já há alguns meses. Telefonema, que lhe forçara a se arrumar, perfumar-se, e perder-se em pensamentos. De quantas formas, e por quantas vezes, esse encontro fora imaginado? Incontáveis. Sempre se imaginando encontrá-la, finalmente, longe das formalidades cotidianas. Longe dos ambientes de “encontro obrigatório”, pré-estabelecidos. Queria que o encontro fosse fim, não apenas uma conseqüência.
Enfim, eis o encontro. Lá estava ela, linda como sempre... Mas, como era de se esperar, não havia o clima de felicidade que A. costumava desenhar para a situação; não houve qualquer apresentação cerimoniosa de A., apesar de poucos o conhecerem. Certamente ele já esperava por isso, desde o momento em que atendeu ao convite para tal, digamos, evento. E, no enorme vazio que a situação trazia, ele não cansava de admirar aquela beleza, tão maior para ele do que a qualquer outro que não enxergasse além da carne. Linda... Como sempre... E pálida, como nunca.
Entre lágrimas e rosas, ela talvez estivesse observando a si própria, em algum plano etéreo. Fitando aquele corpo inerte, A. parece também estar nesse plano etéreo – o sangue corre em suas veias apenas o quanto necessário para permitir-lhe respirar –; os pensamentos novamente lhe transportam de qualquer realidade tangível e congelam o tempo. Tempo que, cruelmente, quando lembrado, parece ter corrido bem mais que o normal.
Ela se foi da vida de A., sem jamais lá ter estado de fato. Talvez por isso o último encontro não interfira tanto na realidade... Apenas, continua a mesma realidade, que um dia se quis diferente. Ela, involuntariamente, abandonou os planos solitários de um solitário A., que assim continua até que ela se faça novamente presente, seja em outra mulher, seja em outro plano.
Para A., ela certamente mereceu o banho, o perfume, o pensamento, e a atual perplexidade... Mas ele prefere pensar que ela merecia algo mais – algo que A., em sua pretensão desiludida, acredita que apenas ele poderia oferecer.
Adriano Borba
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