sábado, 5 de setembro de 2009

O surpreendente amor real

Eu me casei há cerca de três anos. A cerimônia foi linda. Um dia já especial na vida de qualquer um, é mais especial ainda quando me lembro de toda a cena.

A igreja não era grande, e nem estava lotada, o que tornou tudo ainda melhor. A um coro bem afinado e com fundo orquestrado, as portas principais se abriram. Eu esperava apenas que Michele, minha noiva, entrasse. Antes, e ao invés disso, o mundo explodiu em um estrondo no meu ouvido. Minha primeira reação foi fechar os olhos, tremer, levar um susto. Havia um corneteiro para anunciar a entrada da noiva. Ele se preparou para tocar o galante aviso, devia também estar ansioso. Inspirou, expandiu o tórax, tomou fôlego. Soprou impetuosamente a mais afinada nota de corneta, apontando diretamente para o ouvido do noivo, de costas, olhando para a porta, parado poucos centímetros à frente.

Foi um susto e um pulo. Mais que isso, foi um desarme! Podia-se pensar que eu estava em uma cerimônia "social", uma "convenção moral" diriam uns, "um script bem definido", falariam outros. Mas eu não estava mais preparado para aquilo. Eu fora desarmado.

Talvez a Michele, que é mulher, sonhadora, estivesse com tudo imaginado. As mulheres ensaiam o casamento desde cedo com suas bonecas. Essa idéia arrepia até os homens que ainda são meninos. Se em algum momento passou em mim a idéia de um casamento para agradar, uma cerimônia previsível, aquela corneta no ouvido marcou o fim do que poderia ser planejado. Ela me desarmou! Tirou meus pés do chão! Desequilibrou! Em poucos segundo recobrei o sentido. Havia uma visão turva na periferia. No centro, apenas a Michele, usando o vestido mais branco que eu já vira, tão claro quanto seus dentes, emoldurados pelo mais largo sorriso.

E tudo, tão previsível como deve ter acontecido, para mim tornou-se uma grande e agradável novidade. Ao caminhar naquele tapete, seus passos eram feitos da mesma surpresa que fez com que ela entrasse na minha vida anos antes. E a cerimônia que as mulheres ensaiam tanto, foi para mim uma estréia contrastante: enquanto a Michele, radiante, sorria, correu em mim um choro copioso e insistente. Para piorar o contraste, fui eu quem teve a maquiagem borrada!

Estava coberto de pó-de-arroz que minha prima passara em mim pouco antes da cerimônia. "É para não refletir a luz nas fotos", disse ela. E lá estavam dois seres brancos de pé no altar. Um deles usava um largo sorriso e um vestido. O outro, de pele fantasma, dois traços sob os olhos, surpreso, feliz, emocionado. E o casamento transcorreu da melhor forma possível.

Lembro-me de vários detalhes também, mas gostaria de falar sobre dois em particular. São momentos menores dentro de um evento maior, e parecem marcar especialmente. Têm seu lugar cativo na memória. Uma recordação puxando a outra. Como lembrar-se de um jogo de futebol no qual seu time ganhou, mas também perdeu um gol, errou um pênalti, ou aquele craque fez um drible magnífico, por exemplo. Às vezes você pensa na vitória, e lembra logo daquele lance maravilhoso, ou do gol que poderia ter saído. Às vezes o caminho é inverso. Basta pensar no gol perdido e vem a lembrança do jogo.

Antes da cerimônia, há um momento ímpar no qual os padrinhos já estão em fila, os convidados já estão sentados no lugar, mas nada parece acontecer. O noivo estampa um sorriso padrão. Todos se sentem a vontade para fazer a mesma piada: "Ih! Eu acho que ela não vem!".

É engraçado na primeira vez. Você ri na segunda. Mas quando te falam pela vigésima vez, já não tem mais graça. Eu não saberia dizer se, abotoado no fundo do paletó que só se usa uma vez na vida, existia um lugar onde eu ousava crer naquilo. Acreditar que ela tivesse mudado de idéia, que depois de uma ou duas horas em pé me restaria sorrir e agradecer a presença de todos, mas não iria mais haver casamento. "Desculpe! Vocês podem beber e comer a vontade! A festa já está paga mesmo. Eu posso deixar para pular da ponte mais tarde."

Hoje penso que isso não era tudo. Havia uma vontade de começar logo, para terminar logo. Inexperiência em ficar na frente de todos sem ter muito a dizer ou fazer, de certa maneira. Era um anseio para começar a vida, se é que me entendem. Ou talvez fosse só a vontade de se concentrar para que tudo corresse bem.

No auge daquele incômodo paranóico, abotoado no paletó, minha mãe foi falar comigo. Ela escolheu, inadvertidamente, esse momento para tratar de coisas trivialmente importantes, mas alheias a minha consciência. Ela perguntou "Onde você deixou a chave dos quartos do hotel?" ou algo parecido. "Tem gente lá ainda para vir à igreja e que precisa pegar as coisas".

As perguntas soavam destoantes na minha mente enevoada. Vibravam de maneira diferente do meu pensamento. Em uma situação comum, a resposta soaria gentil, agradável, mesmo que nula. Algo como "eu não sei, mãe", ou "deixei na portaria", ou até "estão aqui comigo, que bom que a senhora me lembrou!". Mas nada disso aconteceu. De um tipo egoísta de concentração saíram palavras que começaram com um "não sei e nem quero saber", e terminaram rudemente com palavras de calão baixo o bastante para que nunca sejam ditas, ainda mais em uma igreja.

Sobre isso, quero falar.

É claro que minha mãe sorriu depois. Ela amorteceu o impacto. Não sem antes uma bronca usual. Seu sorriso e atitude superiores permaneceram como um guia para me situar de volta ao prumo da cerimônia. Quem assiste a filmagem percebe nossa entrada na igreja, sorrindo, braços dados. Uma mãe levando o filho para o altar e o casamento. Não há nela semblante de remorso, tristeza ou chateação. Mães são feitas de um material que é mais duro do que isso, e, ao mesmo tempo, é mole o bastante para amortecer qualquer impacto e fazer brotar a vergonha no filho que se atreve a afrontá-las. Elas são a melhor expressão da lei física de que "a toda ação segue-se uma reação de igual força, mas em sentido contrário". Percebe-se que Isaac Newton tinha uma mãe.

Na mesma filmagem, na mesma seqüência de entrada, percebem-se facilmente os passos largos e corridos do noivo pálido, quase tirando a mãe do equilíbrio. Ela esperara vinte e sete anos para acompanhá-lo ao altar em seu casamento, mas nâo podia prever que seria menos um desfile e mais uma corrida de cem metros rasos. Homens não ensaiam essa parte. "É claro que eu sei entrar em uma igreja, que coisa mais boba", responderiam dez de cada dez solteiros perguntados na rua. Mas na verdade não há ensaios suficientes durante a infância masculina. A filmagem é uma prova disso.

A cerimônia foi linda. Ninguém, exceto eu, parecia estar abalado. Mesmo minha mãe e minha sogra, feitas do material único com o qual as mães se moldam, estavam excepcionalmente apropriadas. Mas o noivo pálido estava com a maquiagem borrada, ao lado da noiva mais bela e sorridente do mundo. Na minha família, incluindo meus irmãos, um pranto levou ao outro, de tal forma que, semanas depois, quando perguntado sobre o casamento, um amigo nosso, padrinho da cerimônia, respondeu "foi muito bonita, estava tudo ótimo, uma beleza", e acrescentou ironicamente, "só não entendi porque é que a Michele estava sorrindo tanto e no lado do noivo tinha tanto homem chorando."

E é sobre mães e pais que eu ainda falo. Há tantas histórias que nos marcam.


Há alguns anos, eu trabalhava em plantões em unidades de terapia intensiva de um hospital. Foi internado um garoto de dezesseis anos apresentando um caso raro de pneumonia causada por varicela. "Como assim? Pneumonia por catapora?", perguntei eu, jovem, ao chefe da terapia, que estava me passando o plantão. Ele, experiente, foi categórico, "Pneumonia intersticial, viral, rara. Ao que se sabe, ele não tem qualquer deficiência imunológica e é bom prestar atenção, a mortalidade é bem alta nesses casos".

Seu comentário poderia antes ter sido apenas esclarecedor, mas foi também clarividente. De um desconforto respiratório e febre, a situação agravou-se. Foi necessário acalmá-lo com medicação. Depois, já não havia condições para respirar adequadamente. Foi preciso iniciar ventilação mecânica com entubação orotraqueal. O estado prolongou-se. O que era causado por vírus tornou-se um chão fértil para bactérias e depois fungos. A pneumonia piorou de forma grave. Foi necessário um dreno para aliviar o derrame próximo a seus pulmões. Já não era mais possível manter contato com o garoto. Ele permanecia sedado a maior parte do tempo. Havia momentos em que ele abria os olhos e dizia, com aquela linguagem que só os olhos falam, "doutor, me deixa sair logo daqui", "eu só quero voltar para casa, ficar melhor". Mas seus olhos avançavam para um estado mudo e fechado, pois não havia voz naquele sono profundo.

Mais de dois meses se passaram. Diante da gravidade, seu pai e sua mãe eram o exemplo tocante de amor. Diariamente suas vozes eram mais altas que às dos aparelhos. Imagino que o garoto tenha escutado a voz deles por sobre os bips constantes e inumanos. Eles devem ter sido o apoio em que ele se agarrava. "Força, meu filho". "Estamos orando por você". "Isso vai passar logo". Frases comuns, ditas com uma vontade excepcional.

Na atividade médica fala-se em uma carapaça que recobre o profissional a ponto de torná-lo refratário a emoções. Isso é verdade em parte, mas não havia armadura capaz de barrar a emoção daquelas cenas. Era difícil até, qualquer que fosse a experiência do plantonista, passar informações sobre o caso. A vontade, se ao menos isto fizesse a cura prevalecer sobre o destino, era a de largar as canetas e os estetoscópios, reerguer o garoto e tirar todas as infusões, os drenos e os tubos que o seguravam conosco. "Volta para tua casa, garoto!", diríamos a ele, "Isso não é lugar para a sua idade. Catapora é só uma doença boba de quando a gente é criança. Pode acontecer pneumonia, mas é raro. Tão raro que está escrito só aqui, ó, no canto do livro. Não é justo que uma doença de rodapé de livro possa ser grave". O experiente chefe da terapia intensiva diria para o menino "vai para casa, meu filho! Ninguém morre disso. O pior que ela faz com a gente é deixar uma cicatriz feia na pele, e ainda assim só se você coçar!". Mas seus rins já não funcionavam bem e vários órgãos apresentavam sinais de sobrecarga. A vontade é apenas o que move o ser humano, não é o que de fato deixa rastro.

A piora aconteceu, a despeito dos desejos e das orações. Os pais alugaram um quarto dentro do hospital, como se fossem pacientes. E ali moraram por mais de dois meses. Todos os plantonistas, de uma forma inconscientemente coletiva, abriam exceções merecidas dentro dos rígidos horários de visita. Nas madrugadas em que conversávamos após a visita ao garoto, os pais falavam "nós estamos instalados em um quarto do hospital doutor. Isso quer dizer que nós estamos doentes como ele. Melhor ainda! Nós também somos pacientes, doutor! Pacientes perante a vontade de Deus..."

E foi Ele quem programou a partida do garoto em sua agenda tão exclusiva. O plantão começara extremamente agitado, as drogas não surtiam o efeito desejado, mesmo quando já estavam muito acima da dose habitual. Não havia mais drenos, medicações, manobras, cirurgias... O pulmão se fechara. Nossas ações eram tentativas sinceramente heróicas. Nossos olhos gritavam! Os dele calavam. Após mais de dois meses com aquilo que nenhum garoto na idade dele deveria suportar, a luz que surgia no fim do túnel tinha a cor da paz.

Habitualmente a reanimação é tentada por até trinta minutos em um paciente que apresente parada cardíaca. Após esse tempo, pode-se declarar o óbito, que também é conhecido no meio médico como "êxito letal". Uma expressão algo poética. Afirma que a morte teve seu êxito, como se fosse possível contrariá-la. Pois a morte venceu! Levou mais de duas horas para, enfim, vencer a seqüência insistente de manobras das mais intensas e honestas que já presenciei ou realizei até hoje.

Houve um silêncio frio, prolongado e fora do usual. Descalças as luvas e a máscara, vestido escancaradamente com um pesar intenso, dirigi-me à saída da terapia para ir ao quarto do hospital onde estavam dormindo os pais do menino. Não foi necessário. Ao abrir a porta da UTI os dois já se encontravam lá, de pé, em frente, cabeças inclinadas ao chão. Algo que não tenho esperança de entender os avisara. Riscos pesados molhavam seus rostos. O semblante era cansado, mas não necessariamente triste. Os olhos estavam vermelhos e cobertos de muita, muita paz.

"Já sabemos doutor. Sentimos isso. Ele está em paz agora."

E não houve mais qualquer outra intercorrência, com qualquer outro paciente internado, durante todo o resto do dia. O garoto, agora em paz, tinha o mesmo nome que o meu.


Eu não sei do que os pais são feitos. Mas é um material especial, eu pressinto! Hoje a Michele carrega o que ainda é apenas uma pequena ervilha, nossa ervilha, com 9,1 milímetros e cujo coração bate 141 vezes por minuto dentro dela, junto com o dela. Eu acredito que, de nossos pais, deva brotar o material para nos reforçar. Resistente como o aço, maleável como a água. Eu sei que vai ajudar, durante toda a vida, a esse que já é tão esperado e tão amado. Eu sei porque foi com essa ajuda que chegamos até aqui.

Mas alguém ainda poderia perguntar sobre aquilo que eu falei lá no começo. "Ele disse que se lembrava particularmente de dois momentos relacionados ao casamento e só falou de um até agora", diriam os impacientes. Havia dois momentos para se recordar daquele mesmo jeito conectado com que às vezes um pênalti perdido ou um drible bonito faz lembrar mais de um jogo que o fato de seu time ter ganhado o campeonato naquela partida. Se um dos momentos era o triste episódio antes da entrada na igreja, falta outro relato.

Esse outro instante foi após o casamento, após a lua-de-mel, já em casa, vida de casado. Não havia vestidos brancos ou rostos pálidos de pó-de-arroz. Todas as piadas sobre o quanto o noivo era chorão já tinham sido feitas e inventadas. Chegou enfim o vídeo com a filmagem da cerimônia. Ali estavam a orquestra, meus pais e meus sogros, os padrinhos, os convidados, nossas famílias, nossos avós, que trouxeram as alianças. Claro, em destaque, o noivo chorão e a noiva risonha.

Assistindo a filmagem eu tinha uma sensação feliz, agradável, como quem assiste, satisfeito, a recordação de um momento intenso. "Missão cumprida", eu pensava. Michele, por sua vez, era a noiva feliz e sorridente, com dentes brancos emoldurados em um largo sorriso durante todo o casamento. Permanecia radiante, sem derramar uma lágrima no vídeo, mas agora se desmanchava em choro sobre o sofá. Soluçava e tinha a cara inchada, mal conseguia dizer uma palavra. "Foi tudo tão bonito, tão emocionante, você não acha, amor? Mas porque você e sua mãe correram na entrada?".

Ainda é assim até hoje, quase sempre. As pessoas vêem eternizadas na tela cenas de um noivo chorão e pálido ao lado de uma noiva altiva, risonha e bela. Fora da filmagem, ela chora copiosamente ao lembrar-se de tudo, longe de qualquer câmera. Existe certa injustiça nisso, ou não?


Enfim, a todos, sobre todo esse amor que lhes contei, vale parafrasear o que já sabemos e ouvimos:

"O amor é paciente e é gentil. O amor não é invejoso e não tem dúvidas. Ele não é arrogante ou rude. O amor não insiste em fazer as coisas do jeito dele. Ele não se irrita e não fica ressentido. Ele não se alegra com o errado, mas se regojiza com o certo. O amor resiste a todas as coisas, acredita em todas as coisas, tem esperanças por todas as coisas. E o amor nunca termina."

Com amor,

André

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Jardim da vida

E qual era o motivo de acordar tão cedo? Era um domingo! Mas mesmo assim ela se achava no dever de levantar e diminuir as pendências da próxima semana. Outras pessoas diriam que isso era uma fuga, uma maneira de explicar como ela conseguiu reagir a tudo que aconteceu. Para ela não; fuga era não enfrentar o cotidiano, fuga era se esconder no único lugar que ninguém nos alcançaria: dentro de si!
Não muito tempo atrás, apenas há doze meses, Ingrid ainda sorria. Apesar de um ano não ser o suficiente para que envelheçamos tanto, Ingrid somatizou uma década em doze meses. A perda do único filho para essa mãe solteira é simplesmente inexplicável. Em palavras, mesmo dizendo que é como se o céu caísse sobre uma pessoa e, então o chão se abrisse e embaixo nada além de magma existisse; mesmo assim as palavras parecem sentir pena da situação e de uma forma bastante tímida abrandassem o acontecido.
João era um bom menino, e isso não é uma descrição saudosa e misericordiosa àqueles que já partiram. João era mesmo um garoto carinhoso, amoroso, atencioso. Seus oito anos de idade foram oito anos de alegria aos que estavam por perto. Porém não importa quanto tempo dura a felicidade, é fato que nunca vai durar para sempre. Todos os sentimentos são mutáveis com qualquer piscar de olhos!
Ingrid sabia disso; se não sabia, viveu e aprendeu. Independentemente do conhecimento congênito ou adquirido, Ingrid entendia a instabilidade do mundo ao seu redor. Entendia que uma flor nem sempre foi cheirosa, nem sempre foi sequer uma flor e que, em pouco tempo, deixará de ser o que é. Entretanto, sabia que ser flor é algo belo e que sempre vai acontecer em alguma parte do mundo. Sabia que perfume é perfume, pode ser trazido por uma flor ou levado pelo vento, só muda o local onde agrada o olfato alheio.
No cotidiano, no mais simples cotidiano, Ingrid dava um exemplo de vida. Mostrava que somos felizes pelo que vivemos e como vivemos, nunca pelo quanto vivemos. Mostrava que a vida é vivida por um imprevisível número de dias que nos dão sempre uma nova chance de buscar a felicidade, assim como nos expõe fragilmente à tristeza; essa é a mágica da vida! Reza todas as noites agradecendo por ter tido seu filho por perto, rezava por João ter sido a mais bela flor com o mais belo perfume que lhe alegrou a vida. E que a dor da sua ausência só existe pela alegria que foi sua presença; prefere viver com essa dor a nunca ter sentido o perfume.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Prático e Bufão

Dois macacos viviam em uma grande árvore, no meio da floresta. Não se sabe qual floresta, que tipo de árvore ou que espécie de macaco. Aliás, nem importa que sejam macacos. Importa apenas que eram seres. Dois. Um ativo, outro passivo, e nenhum deles gay – era apenas uma questão de comportamento, de atitude para com a vida: enquanto um fazia o melhor de si e, não se contentando com isso, buscava melhorar o seu melhor, o outro apenas estava ali. Um vivia, enquanto o outro sobrevivia. Se fossem porcos, poderíamos tomar de empréstimo, para um deles, a imagem de Prático, o mais responsável dentre os famosos Três Porquinhos. Não são porcos, mas, mesmo assim, chamemos um deles de Prático. O outro, chamemos simplesmente de Bufão.
Pois bem. Um belo dia, ambos saboreavam qualquer coisa que Prático havia caçado para o almoço – o talento de Bufão para a caça limitava-se à árdua tarefa de digeri-la; de qualquer forma, a comida estragaria se não fosse consumida em breve. Prático não reclamava: melhor permitir a um conhecido comer as sobras do que deixar a comida estragar, enchendo o ambiente de moscas e pesando sua consciência ao negar um alimento que, afinal, lhe sobraria.
Enquanto Prático fazia a digestão recuperando-se do cansaço matinal, e Bufão fazia a digestão com a mesma atitude e preguiça de um dia inteiro – incluindo aí a parte do dia que ainda não acontecera –, o tempo fechou. Nuvens negras cobriam o céu e assustavam a terra, obrigando os seres a buscar abrigo. Para Prático, isso significava cobrir a lenha que mantinha de estoque, trazer umas sementes para junto de seu refúgio entre os troncos de árvore – acaso a chuva demore mais que o conveniente – e, enfim, abrigar-se. Para Bufão, restava continuar como estava: abaixo de sua costumeira copa de árvore, onde, amante de uma eterna preguiça, se via abraçado pelas sombras, acariciado pela brisa e beijado por folhas que lhe cobriam as vistas.
De repente, entre raios estrondosos que riscavam o céu e, por vezes, chicoteavam a terra, Prático notou uma pequena chama surgindo no topo da copa de árvore onde Bufão roncava profundamente. Gritou pelo colega, sem sucesso, vencido pelo barulho ensurdecedor do temporal. Desesperado, antes que uma diminuta chama se tornasse um incêndio florestal, subiu entre os galhos, até se deparar com o fogo. Felizmente, era apenas um galho, que, seco, facilmente se partiu com o esforço de Prático. Saltando da copa da árvore para o chão, com o galho em mãos, buscou um pedaço de chão sem folhas onde atirou o galho, cobrindo-o de terra e, com pancadas ao solo, desferidas com a ajuda de uma grande pedra, certificou-se do fim do temido fogo.
Prático, respirando aliviado, olhou ao seu redor: tudo igual. Engraçado constatar que, para que tudo permaneça o mesmo, tanto precise ser feito – ao contrário do que poderia parecer, ao reparar Bufão ainda envolto em sonhos embaixo da copa. Por um segundo, Prático mentalmente trocou Bufão de posição com o galho em chamas, como se pudesse também soterrar e eliminar aquele ócio doentio – após algumas pancadas, o comodismo do colega sairia em forma, cheiro e som de fumaça, surgindo da terra um novo Bufão, que certamente precisaria de um novo nome. Bom, mas, voltando à realidade, lhe sobrava o orgulho pessoal e contido de ter feito a coisa certa – ou, ao menos, de ter feito alguma coisa.
Às vezes lhe surgia uma certa revolta por batalhar sozinho em prol de benefícios partilhados. Mas deixa pra lá. Não era por Bufão que Prático vivia seus dias e procurava fazer o bem. Fazia o bem pelo bem, e isso lhe bastava – fazer o bem ao seu redor era uma grata conseqüência dos esforços em busca de uma vida que lhe parecia digna de ser vivida.