Dois macacos viviam em uma grande árvore, no meio da floresta. Não se sabe qual floresta, que tipo de árvore ou que espécie de macaco. Aliás, nem importa que sejam macacos. Importa apenas que eram seres. Dois. Um ativo, outro passivo, e nenhum deles gay – era apenas uma questão de comportamento, de atitude para com a vida: enquanto um fazia o melhor de si e, não se contentando com isso, buscava melhorar o seu melhor, o outro apenas estava ali. Um vivia, enquanto o outro sobrevivia. Se fossem porcos, poderíamos tomar de empréstimo, para um deles, a imagem de Prático, o mais responsável dentre os famosos Três Porquinhos. Não são porcos, mas, mesmo assim, chamemos um deles de Prático. O outro, chamemos simplesmente de Bufão.
Pois bem. Um belo dia, ambos saboreavam qualquer coisa que Prático havia caçado para o almoço – o talento de Bufão para a caça limitava-se à árdua tarefa de digeri-la; de qualquer forma, a comida estragaria se não fosse consumida em breve. Prático não reclamava: melhor permitir a um conhecido comer as sobras do que deixar a comida estragar, enchendo o ambiente de moscas e pesando sua consciência ao negar um alimento que, afinal, lhe sobraria. Enquanto Prático fazia a digestão recuperando-se do cansaço matinal, e Bufão fazia a digestão com a mesma atitude e preguiça de um dia inteiro – incluindo aí a parte do dia que ainda não acontecera –, o tempo fechou. Nuvens negras cobriam o céu e assustavam a terra, obrigando os seres a buscar abrigo. Para Prático, isso significava cobrir a lenha que mantinha de estoque, trazer umas sementes para junto de seu refúgio entre os troncos de árvore – acaso a chuva demore mais que o conveniente – e, enfim, abrigar-se. Para Bufão, restava continuar como estava: abaixo de sua costumeira copa de árvore, onde, amante de uma eterna preguiça, se via abraçado pelas sombras, acariciado pela brisa e beijado por folhas que lhe cobriam as vistas. De repente, entre raios estrondosos que riscavam o céu e, por vezes, chicoteavam a terra, Prático notou uma pequena chama surgindo no topo da copa de árvore onde Bufão roncava profundamente. Gritou pelo colega, sem sucesso, vencido pelo barulho ensurdecedor do temporal. Desesperado, antes que uma diminuta chama se tornasse um incêndio florestal, subiu entre os galhos, até se deparar com o fogo. Felizmente, era apenas um galho, que, seco, facilmente se partiu com o esforço de Prático. Saltando da copa da árvore para o chão, com o galho em mãos, buscou um pedaço de chão sem folhas onde atirou o galho, cobrindo-o de terra e, com pancadas ao solo, desferidas com a ajuda de uma grande pedra, certificou-se do fim do temido fogo. Prático, respirando aliviado, olhou ao seu redor: tudo igual. Engraçado constatar que, para que tudo permaneça o mesmo, tanto precise ser feito – ao contrário do que poderia parecer, ao reparar Bufão ainda envolto em sonhos embaixo da copa. Por um segundo, Prático mentalmente trocou Bufão de posição com o galho em chamas, como se pudesse também soterrar e eliminar aquele ócio doentio – após algumas pancadas, o comodismo do colega sairia em forma, cheiro e som de fumaça, surgindo da terra um novo Bufão, que certamente precisaria de um novo nome. Bom, mas, voltando à realidade, lhe sobrava o orgulho pessoal e contido de ter feito a coisa certa – ou, ao menos, de ter feito alguma coisa. Às vezes lhe surgia uma certa revolta por batalhar sozinho em prol de benefícios partilhados. Mas deixa pra lá. Não era por Bufão que Prático vivia seus dias e procurava fazer o bem. Fazia o bem pelo bem, e isso lhe bastava – fazer o bem ao seu redor era uma grata conseqüência dos esforços em busca de uma vida que lhe parecia digna de ser vivida.
O incrível caso da grávida virgem desvaginada
Há uma semana
Um comentário:
Gostei muito! Especial essa aí! Parabéns, mesmo!
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